Eu tinha uns doze anos quando meu primo, que então devia ter dez, apareceu na minha casa com um minúsculo brinco com uma pedra dourada em sua orelha esquerda. Como toda criança adora uma novidade, imediatamente comecei a encher o saco de meus pais para que me deixassem colocar um brinco igual. Meu pai achou que aquilo era modismo, e não deixou sob nenhuma hipótese.
At A Glance Author BesouroLaranja Contact besourolaranja@bol.com.br When Ten years ago or more Artist minha mãe Studio minnha casa Location Brasil Passaram-se dois anos, eu já tinha então quatorze, nós havíamos nos mudado da casa onde morávamos para um apartamento mais próximo ao centro da cidade. Meu primo (para quem o brinco foi, de fato, modismo) já havia tirado seu brinco, e eu ainda continuava enchendo o saco para que me deixassem furar o lobo da orelha esquerda.
Minha mãe chegou em casa certa vez trazendo um par de brincos vagabundos (exatamente o que eu queira), que vendem em qualquer farmácia no Brasil. Disse que tinha decidido deixar que eu usasse um brinco, que tinha sido bobagem me restringir aqueles dois anos por uma coisa que eu queria tanto e que meu pai ainda não sabia de nada, mas que quando chegasse em casa minha orelha já estaria furada.
Ela apertou meu lobo esquerdo até exangüiná-lo (e deixá-lo dormente, em conseqüência), e apertou um dos brincos contra a pele, dizendo que ia apenas ferir a pele para marcar o local ideal, para depois furarmos. Ouvi um barulho súbito, como um estalo, e quando percebi estava com um brinco atravessado no lobo – ela havia mentido, e pretendia desde o início furar minha orelha naquele instante.
Depois da fase de cicatrização, usei ainda por muito tempo aquele primeiro brinco, e depois troquei por diversos, dentre argolas e figuras como águias e caveiras, muitos presenteados por namoradas. Meu pequeno brinco de pedra dourada (idêntico ao do meu primo) continuou fazendo sucesso, porém, e de vez em quando eu ainda o usava.
Quando fiz dezessete anos eu já morava fora de casa, em outra cidade (a capital de meu Estado), ainda que inteiramente sustentado pelos meus pais, e estudava o primeiro ano de Medicina na Universidade Federal do Espírito Santo. Decidi que era hora de furar o lobo da outra orelha, e pedi para que minha mãe fizesse o trabalho. Só que meu pai, ouvindo a respeito, decidiu que se não podia me impedir queria pelo menos participar. Foi um desastre. Ele apertava o brinco contra minha orelha com força, e aquilo doía infernalmente, mas quando finalmente atravessou, ficou bem torto. Ruim mesmo. Inaceitável. Pedi ajuda à minha mãe que, apesar de extremamente solícita, ou não teve a mesma mão leve que da primeira vez ou eu já estava demasiadamente sensibilizado pela agressão que sofri do meu pai para que considerasse o procedimento feito pela minha mãe indolor. Ainda assim, com ela as coisas foram bem mais fáceis.
Ela reutilizou o buraco feito pelo meu pai na parte da frente do lobo da minha orelha direita, mas a partir dele refez o trajeto da haste do brinco por dentro da pele, e saiu em um ponto totalmente diferente do original na parte de trás. Ficou perfeito. O alinhamento era ótimo, e estava tão perfeitamente simétrico com o lado esquerdo quando as imperfeições do rosto humano permitiam estar.
Usei do lado direito um brinco de pedra amarela (o par do meu primeiro brinco, que só era vendido aos pares e eu só havia suado um até então) até que cicatrizasse, mas dessa vez tive mais problemas. Talvez devido à maior manipulação da minha orelha durante o procedimento, o furo infectou e eu tive de lidar com um lobo inchado, vermelho, quente e dolorido, que eu espremia gentilmente duas vezes ao dia para drenar o pus, e depois lavava com sabão de coco. Não cheguei a usar antibióticos por via oral, somente tópicos, mas no fim de alguns dias tido estava bem de novo, meu lobo parecia saudável, a dor e a inflamação tinham-se ido e o furo ia bem, obrigado.
Assim que inteiramente cicatrizado, troquei o brinco de pedra por um par de argolas de prata, que fiquei alguns anos sem nunca tirar. Depois, quando tirava por algum motivo e perdia um brinco, voltava sempre a usar argolas de prata, uma em cada furo, uma em cada lobo, uma de cada lado. Terminei a faculdade de Medicina sem tirar os brincos, praticamente, exceto uma rara vez ou outra (como no estágio da Cirurgia, em que fui forçado a faze-lo pelo preceptor), e nunca recebi nenhuma crítica de pacientes (que foram muitos), só de professores. Nas fotos de formatura, apareci de brincos, e no Baile de Formatura usei smoking e brincos.
Hoje ainda uso os brincos, embora freqüentemente os tire e fique três ou quatro dias sem usa-los, mas isto se deve ao fato de agora eu praticar Jiu-Jitsu. Também deixei meu cabelo crescer, e enquanto escrevo eu peno no verão do Brasil com meus cachos castanhos sobre os ombros. Minha atual (e provavelmente definitiva) namorada adora meus brincos (bem mais que meu longo cabelo), e não gostaria que eu parasse de usa-los.
Sempre confiro o ModBlog para ver os maravilhosos trabalhos de tatuagem publicados em fotos. Sou admirador principalmente dos chest pieces de excelente qualidade que vejo por lá. Pretendo ser tatuado no futuro próximo, mas ainda procuro um tatuador que me deslumbre com sua arte, uma vez que é definitiva. Até lá, admiro as fotos dos outros.